Aterosclerose
Entrevista com o diretor científico da SOCESP, Andrei Sposito
1. O que é aterosclerose?
Andrei Sposito: A aterosclerose é uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo progressivo de gordura, colesterol, células inflamatórias e outras substâncias na parede das artérias, formando estruturas chamadas placas ateroscleróticas.
Essas placas podem se romper provocando a formação de um coágulo no interior dos vasos podendo causar infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Além disso, podem causar o estreitamento dos vasos sanguíneos, e por isso necessitando correção por angioplastia ou cirurgia de revascularização.
2. Como a aterosclerose se desenvolve?
Andrei Sposito: A aterosclerose se desenvolve lentamente ao longo de anos ou décadas. O processo geralmente começa com uma lesão no endotélio e na camada íntima, uma fina lâmina na parede das artérias.
A partir daí, ocorre a entrada na parede arterial de nanopartículas transportadoras de colesterol, desencadeando uma resposta inflamatória contínua. Com o tempo, essa inflamação leva à formação e ao crescimento das placas, que, como dito acima, podem reduzir o fluxo sanguíneo ou se romper, causando doenças cardiovasculares.
3. Pode explicar em detalhes como acontece a formação da placa aterosclerótica?
Andrei Sposito: A formação da placa aterosclerótica ocorre em várias etapas:
1.A placa aterosclerótica se forma quando lipoproteínas que transportam colesterol, sobretudo a LDL, saem do sangue e entram na parede da artéria (na camada interna, a túnica íntima). Ali, parte dessas LDL fica presa a componentes da parede, um passo-chave do início da aterosclerose. Esse processo é favorecido por LDL alta, pressão alta, tabagismo e diabetes.
2.Depois de retidas, essas lipoproteínas sofrem alterações (por oxidação e outras reações) e passam a provocar inflamação. O endotélio — a fina camada de células em contato com o sangue — passa a “chamar” células de defesa. Dentre essas células, os macrófagos entram na parede das artérias e engolem LDL alterada. Ao acumular lipídios, esses macrófagos dão início à formação da placa aterosclerótica.
3.Com o tempo, a inflamação contínua recruta e ativa células da própria artéria, especialmente células musculares lisas, que produzem colágeno e formam uma capa fibrosa separando o interior dos vasos da placa aterosclerótica. Esse processo é lento e silencioso, ou seja, não causa nenhum sintoma.
4.As manifestações graves geralmente acontecem quando a placa se torna instável. Se a capa fibrosa rompe ou se há erosão da superfície, o sangue entra em contato com material muito trombogênico da placa e forma-se um trombo (coágulo). Esse trombo pode obstruir a artéria de forma súbita, levando a infarto ou AVC isquêmico.
4. O que é aterosclerose generalizada?
Andrei Sposito: A aterosclerose generalizada ocorre quando o processo aterosclerótico está presente em múltiplos territórios arteriais do corpo ao mesmo tempo, como:
•artérias coronárias (coração),
•carótidas (cérebro),
•artérias periféricas (pernas),
•artérias renais.
Isso indica maior carga da doença e maior risco cardiovascular global.
5. Quais os principais fatores de risco para a aterosclerose?
Andrei Sposito: Os principais fatores de risco incluem:
•Colesterol elevado (especialmente LDL alto)
•Hipertensão arterial
•Diabetes
•Tabagismo
•Uso de cocaína ou seus derivados
•Sedentarismo
•Obesidade
•Alimentação inadequada
•Idade avançada
•Histórico familiar de doença cardiovascular precoce
•Estresse crônico
6. Pode descrever como cada um deles contribui para essa doença?
Andrei Sposito:
•Colesterol elevado: concentrações altas de lipoproteínas que transportam colesterol, especialmente LDL, aumentam a quantidade dessas partículas que penetra e fica retida na parede das artérias. Essa retenção é um passo inicial da aterosclerose e favorece inflamação local e formação da placa.
•Hipertensão: a pressão elevada exerce estresse mecânico contínuo sobre a parede arterial e altera o funcionamento do endotélio. Isso facilita a entrada e retenção de lipoproteínas na parede da artéria e acelera o processo inflamatório.
•Diabetes: níveis elevados de glicose e resistência à insulina promovem inflamação, alterações do metabolismo das lipoproteínas e modificações químicas dessas partículas, tornando-as mais aterogênicas e aumentando o dano vascular.
•Tabagismo: substâncias tóxicas do cigarro provocam disfunção endotelial, aumentam o estresse oxidativo e estimulam inflamação na parede arterial. O tabagismo também favorece a formação de coágulos, elevando o risco de infarto e AVC.
•Sedentarismo: a falta de atividade física favorece o desenvolvimento de obesidade, resistência à insulina e alterações no perfil das lipoproteínas circulantes, fatores que aumentam o risco de aterosclerose.
•Obesidade: o excesso de tecido adiposo, especialmente abdominal, está associado a inflamação crônica de baixo grau e a alterações metabólicas como resistência à insulina e dislipidemia, que contribuem para a progressão da doença arterial.
•Dieta inadequada: padrões alimentares ricos em gorduras saturadas, açúcares e alimentos ultraprocessados favorecem elevação de lipoproteínas aterogênicas e alterações metabólicas que aceleram a formação de placas.
•Cocaína: o uso de cocaína provoca disfunção endotelial, inflamação vascular e maior tendência à formação de trombos, o que pode acelerar a aterosclerose e precipitar infarto ou AVC.
•Idade e genética: o risco aumenta com o envelhecimento porque as artérias acumulam exposição prolongada aos fatores de risco. Variantes genéticas também influenciam o metabolismo das lipoproteínas e a suscetibilidade individual à doença.
•Uso de testosterona em doses suprafisiológicas: o uso de testosterona ou esteroides anabolizantes em doses acima das fisiológicas pode alterar o perfil das lipoproteínas (aumentando LDL e reduzindo HDL), favorecer elevação da pressão arterial, estimular aumento do hematócrito e promover alterações inflamatórias e endoteliais. Esses efeitos podem acelerar o desenvolvimento da aterosclerose e aumentar o risco de eventos cardiovasculares.
7. Quais são os sintomas?
Andrei Sposito: A aterosclerose pode permanecer assintomática por muitos anos. Os sintomas surgem quando há redução significativa do fluxo sanguíneo ou obstrução arterial aguda. Nesse último caso, o sintoma refletirá o infarto ou AVC e pode ser letal em 25 a 50% dos casos, antes mesmo de chegar ao atendimento médico.
Os sintomas mais comuns variam conforme o local afetado:
•Coração: dor no peito (angina), falta de ar, infarto.
•Cérebro: tontura, fraqueza na metade direita ou esquerda do corpo, alterações da fala ou AVC.
•Pernas: dor ao caminhar (claudicação), cansaço ou feridas que não cicatrizam.
8. Como costuma ser o prognóstico da aterosclerose, se não tratada? Quais as principais complicações?
Andrei Sposito: Sem tratamento, a aterosclerose tende a progredir lentamente e aumentar o risco de eventos graves, como:
•Infarto
•Acidente vascular cerebral (AVC)
•Doença arterial periférica
•Insuficiência cardíaca
•Morte cardiovascular
A ruptura ou ulceração de uma placa aterosclerótica é a causa dos eventos agudos.
9. Como é feito o diagnóstico? Quais os exames mais importantes?
Andrei Sposito: O diagnóstico combina avaliação clínica, fatores de risco e exames complementares.
Entre os principais exames estão:
•Exames de sangue (perfil lipídico e glicemia)
•Eletrocardiograma
•Teste ergométrico
•Ecocardiograma
•Ultrassom Doppler de carótidas ou artérias periféricas
•Tomografia coronária com escore de cálcio
•Angiotomografia ou cateterismo cardíaco (em casos selecionados)
10. A forma como a investigação é feita difere entre pessoas com sintomas e sem sintomas? Como?
Andrei Sposito: Sim. Pessoas sem sintomas: a investigação é voltada para avaliação do risco cardiovascular global e prevenção, utilizando exames laboratoriais e, em alguns casos, exames de imagem para estratificação de risco. Pessoas com sintomas: a investigação busca identificar obstruções significativas e orientar tratamento imediato, podendo incluir exames funcionais ou invasivos. A abordagem é sempre individualizada.
11. Como costuma ser o tratamento em caso de aterosclerose?
Andrei Sposito: O tratamento envolve três pilares principais:
1. Mudança do estilo de vida
•alimentação saudável,
•prática regular de atividade física,
•cessação do tabagismo, das drogas derivadas da cocaine e ou dos anabolizantes
•controle do peso.
2. Medicamentos
•estatinas e outros redutores de colesterol,
•anti-hipertensivos,
•antidiabéticos,
•antiagregantes plaquetários, quando indicados.
3. Procedimento
Nos casos mais avançados, podem ser necessários:
•angioplastia com stent,
•cirurgia de revascularização,
•procedimentos vasculares periféricos.
12. Aterosclerose tem cura?
Andrei Sposito: A aterosclerose é uma doença crônica e não possui cura definitiva. No entanto, pode ser controlada e estabilizada. Com tratamento adequado, é possível reduzir a progressão das placas, diminuir o risco de complicações e melhorar significativamente a qualidade e a expectativa de vida. Além disso, se a prevenção se iniciar precocemente e de forma regular, o desenvolvimento da aterosclerose pode ser prevenido.
13. E como prevenir?
Andrei Sposito: A prevenção começa cedo e baseia-se no controle dos fatores de risco:
•manter alimentação equilibrada,
•praticar atividade física regularmente,
•não fumar,
•controlar pressão arterial, colesterol e glicemia,
•manter peso adequado,
•realizar acompanhamento médico periódico.
A prevenção cardiovascular ao longo da vida é a estratégia mais eficaz contra a aterosclerose.
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