4 de junho de 2026 - SOCIEDADE DE CARDIOLOGIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
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A conexão entre saúde bucal e o coração

A conexão entre saúde bucal e o coração


Entrevista com o assessor científico do Departamento de Odontologia da SOCESP, Frederico Buhatem de Medeiros.


Cada vez mais, a ciência reforça que a saúde do corpo não pode ser compreendida de forma fragmentada e a boca ocupa um papel central nessa integração. Um estudo publicado na Revista da SOCESP* evidencia que a saúde bucal vai muito além da estética ou do conforto mastigatório, exercendo influência direta e indireta sobre a saúde cardiovascular e o bem-estar geral do paciente.


O trabalho, que analisou 22 artigos científicos nacionais e internacionais, destaca que condições como doença periodontal, infecções odontogênicas, dor orofacial e hábitos de vida inadequados podem contribuir para processos inflamatórios crônicos e sistêmicos, associados ao desenvolvimento e à piora de doenças cardiovasculares. Os autores analisaram evidências que demonstram como a interação entre odontologia e cardiologia é essencial para a prevenção e o manejo de doenças crônicas.


Os resultados reforçam a necessidade de uma abordagem multidisciplinar no cuidado em saúde, na qual cirurgiões-dentistas e cardiologistas atuem de forma complementar, ampliando o olhar sobre o paciente e sua qualidade de vida. 


Saúde bucal e prevenção cardiovascular é o tema dessa entrevista com o assessor científico do Departamento de Odontologia da SOCESP, Frederico Buhatem de Medeiros.


O que seria saúde bucal?

Frederico Buhatem de Medeiros: Saúde bucal é a ausência de caries e/ou doenças da boca, com parte integrante da saúde geral, bem-estar-físico, mental e social. 


Quais são os cuidados necessários para garantir a saúde da boca e dentes?

Frederico Buhatem de Medeiros: As recomendações odontológicas são as seguintes: 

- Higiene bucal adequada;

- Alimentação saudável;

- Evitar o fumo e o consumo de bebidas alcoólicas;

- Visitas ao cirurgião dentista periodicamente.


Há anos estudos sugerem uma associação entre doenças gengivais e problemas cardiovasculares. O que a ciência já conseguiu demonstrar até agora?

Frederico Buhatem de Medeiros: Hoje já sabemos que existe uma associação real e consistente entre doença periodontal, aquela inflamação crônica da gengiva que pode levar à perda óssea e até dos dentes, e maior risco de doenças cardiovasculares.

Estudos epidemiológicos mostram que pessoas com doença periodontal têm um risco aproximadamente 20% a 30% maior de desenvolver doenças cardiovasculares quando comparadas àquelas com gengivas saudáveis.

O que a ciência conseguiu demonstrar com segurança é que há uma correlação importante e biologicamente plausível. O que ainda está em estudo é o quanto essa relação é causal e o impacto exato do tratamento periodontal na redução de eventos cardiovasculares a longo prazo.


A relação entre doença periodontal e doença cardíaca é considerada consistente na literatura ou ainda há controvérsias?

Frederico Buhatem de Medeiros: A associação é considerada consolidada. Ela aparece repetidamente em diferentes populações, países e metodologias de estudo.

O ponto de debate não é se existe associação, isso já está bem documentado, mas se a doença periodontal é um fator de risco independente ou se compartilha fatores de risco com as doenças cardíacas, como tabagismo, diabetes e obesidade.

Ou seja, a ciência já entende que existe uma conexão. O que ainda se investiga é o tamanho exato desse impacto e como ele se comporta em diferentes perfis de pacientes.


Quando falamos da associação entre saúde bucal e doenças cardiovasculares, estamos falando de algum problema específico ou de saúde bucal ruim de forma geral?

Frederico Buhatem de Medeiros: A maior parte das evidências, tem como foco principal e relação especificamente à doença periodontal, doença crônica e progressiva dos tecidos que sustentam os dentes. 

No entanto, de forma mais ampla, uma saúde bucal negligenciada costuma refletir maior carga inflamatória no organismo, e isso pode contribuir indiretamente para o risco cardiovascular.


Como a saúde bucal pode afetar o coração? Quais são os mecanismos que sustentam essa hipótese?


Frederico Buhatem de Medeiros: Existem basicamente três mecanismos principais estudados:

Inflamação sistêmica: A doença periodontal, gera inflamação crônica desencadeada que libera substâncias na corrente sanguínea que podem contribuir para a formação e progressão de placas nas artérias coronárias (aterosclerose).

Disseminação bacteriana: Bactérias da boca podem entrar na corrente sanguínea, especialmente em casos de gengiva inflamada. Essas bactérias já foram identificadas em placas ateroscleróticas.

Resposta imunológica cruzada: A doença periodontal pode provocar disfunção endotelial, que é uma alteração precoce na parede dos vasos sanguíneos.


Quando os estudos apontam uma associação com doenças do coração, de quais doenças estamos falando exatamente?

Frederico Buhatem de Medeiros: Falamos principalmente de doença arterial coronariana, que pode levar ao infarto; acidente vascular cerebral (AVC); aterosclerose; endocardite infecciosa.


Tratar a doença periodontal pode ajudar a reduzir o risco cardiovascular ou ainda não há evidência suficiente? 

Frederico Buhatem de Medeiros: Já existem estudos mostrando que o tratamento periodontal reduz marcadores inflamatórios no sangue, melhora a função do endotélio (a camada interna dos vasos sanguíneos) e contribui para melhor controle glicêmico em pacientes diabéticos.

Hoje o dentista tem um papel cada vez mais integrado à saúde geral. Não é apenas sobre dentes, é sobre reduzir inflamação, controlar e/ou eliminar infecção e contribuir para um organismo mais saudável.

Cuidar da saúde bucal é, comprovadamente, mais do que uma questão estética. É uma questão de saúde sistêmica.

A boca não é um sistema isolado. Ela faz parte do corpo. E quando há inflamação constante, os reflexos não se limitam ao sorriso, repercutem em todo o corpo.



* https://socesp.org.br/revista/edicoes/revista-socesp-v35-n3-2025-35-3/saude-integrada-a-interface-entre-odontologia-e-cardiologia-na-prevencao-de-doencas-1100/

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