Mirar na orelha e acertar no coração
Entrevista com o coordenador de Temas Livres do 46º Congresso da SOCESP, Eduardo Gomes Lima
O que é o sinal de Frank?
O sinal de Frank é uma prega diagonal no lóbulo da orelha. Ele foi descrito pela primeira vez no início da década de 1970 por um pneumologista americano, que observou uma possível relação entre esse achado e a presença de doença coronariana.
Desde então, diversos estudos buscaram correlacionar esse sinal com obstruções nas artérias do coração, identificadas por meio de exames como cateterismo e métodos de imagem.
O sinal de Frank é um diagnóstico de doença cardíaca?
Não. O sinal de Frank não é um exame diagnóstico e não confirma, por si só, a presença de doença coronariana. Ele deve ser interpretado apenas como um possível marcador de risco, que pode sugerir a necessidade de investigação complementar.
Qual é a sensibilidade e o valor preditivo do sinal de Frank?
A sensibilidade do sinal de Frank varia, em média, entre 40% e 60%, o que significa que muitos pacientes com doença coronariana não apresentam essa alteração.
Já o valor preditivo positivo é mais elevado, variando entre 63% e 90%. Isso indica que, quando o sinal está presente, a probabilidade de haver doença coronariana é maior, embora ainda variável.
Por que essa prega aparece na orelha?
A explicação exata ainda não é totalmente conhecida. Durante muito tempo, acreditou-se que o sinal estivesse relacionado apenas ao envelhecimento e à perda natural de colágeno.
No entanto, estudos de autópsia mostraram que, na região da prega, pode haver degeneração dos pequenos vasos sanguíneos e do tecido nervoso local, caracterizando um processo de microangiopatia.
Essa alteração vascular pode levar à perda de colágeno e à formação da prega, podendo refletir alterações semelhantes nos vasos do coração.
Qual é a relação entre a orelha e o coração?
A principal hipótese é que o elo entre o sinal de Frank e a doença coronariana seja o comprometimento vascular.
Da mesma forma que ocorre degeneração dos pequenos vasos no lóbulo da orelha, alterações semelhantes podem estar presentes nas artérias coronárias, refletindo um processo sistêmico de aterosclerose.
A idade interfere na interpretação do sinal de Frank?
Sim. A associação entre o sinal de Frank e a doença coronariana tende a ser mais significativa em pessoas com menos de 60 anos.
Com o envelhecimento, a prega pode surgir apenas como parte da perda natural de colágeno, reduzindo seu valor preditivo para doença cardiovascular.
O que é a prega anterotragal?
A prega anterotragal é uma dobra localizada à frente do trago, uma pequena saliência cartilaginosa próxima ao rosto, na parte interna da orelha.
Assim como o sinal de Frank, essa prega também tem sido estudada como possível marcador de risco cardiovascular.
Existe evidência científica sobre a prega anterotragal?
Sim. Um estudo realizado por pesquisadores da UNESP de Botucatu, publicado em 2006 por um grupo da área de dermatologia, avaliou a relação entre o sinal de Frank, a prega anterotragal e o risco cardiovascular.
Os pesquisadores observaram que cerca de 45% das pessoas com sinal de Frank também apresentavam a prega anterotragal. Ambas as alterações estavam associadas a maior risco cardiovascular.
O que significa a presença das duas pregas ao mesmo tempo?
A presença simultânea do sinal de Frank e da prega anterotragal aumenta o valor preditivo positivo para doença cardiovascular, chegando a cerca de 90% em alguns estudos.
Isso significa que, quando as duas alterações estão presentes, a probabilidade de doença coronariana é maior.
Essas pregas também se relacionam com outras doenças vasculares?
Sim. Estudos mais recentes mostraram associação dessas pregas com a doença arterial periférica, que é a manifestação da aterosclerose nos membros inferiores.
Isso reforça o caráter sistêmico da aterosclerose, que pode acometer as coronárias, as carótidas, os vasos intracranianos e os vasos periféricos.
Por que a aterosclerose é considerada uma doença sistêmica?
A aterosclerose é um processo inflamatório crônico que afeta o sistema arterial como um todo. Ela é a principal causa de mortalidade no mundo ocidental, estando associada a eventos como infarto, acidente vascular cerebral e doença arterial periférica.
Como esses sinais devem ser usados na prática clínica?
A principal utilidade do sinal de Frank e da prega anterotragal é sua facilidade de identificação, sem custo e sem necessidade de equipamentos.
Na prática, eles funcionam como ferramentas de triagem:
•Em pacientes sem sintomas, podem motivar a investigação de aterosclerose subclínica;
•Em pacientes com sintomas, podem reforçar a necessidade de investigação cardiovascular.
Quais exames podem ser indicados após esses achados?
Quando considerados relevantes no contexto clínico, esses sinais podem indicar a realização de exames como:
•Doppler de carótidas;
•Doppler de artérias ilíacas;
•Escore de cálcio coronariano.
Esses métodos permitem identificar aterosclerose ainda em fases iniciais.
Esses sinais substituem exames cardiológicos?
Não. O sinal de Frank e a prega anterotragal não substituem exames clínicos, laboratoriais ou de imagem. Eles devem ser utilizados apenas como complemento à avaliação global do paciente.
Qual é a principal mensagem para médicos e pacientes?
A principal mensagem é que esses sinais não fazem diagnóstico, mas sugerem risco.
Eles devem ser interpretados dentro do contexto clínico, considerando idade, fatores de risco, sintomas e histórico familiar.
Por que a mudança de conduta é fundamental?
Nenhum exame tem real utilidade se não gerar mudança de conduta.
O valor desses achados está em possibilitar:
•Orientação para hábitos de vida mais saudáveis;
•Controle rigoroso de fatores de risco;
•Início de tratamento medicamentoso, quando indicado.
Essas medidas são as responsáveis pela real redução do risco cardiovascular.
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