Por Elton Scuro, cardiologista e diretor da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP)
Quando uma pessoa sofre uma parada cardíaca, o tempo passa a ser o maior inimigo. Em poucos segundos ela perde a consciência, deixa de respirar normalmente e o coração para de bombear sangue para os órgãos vitais. Sem atendimento imediato, especialmente sem ressuscitação cardiopulmonar (RCP) e, quando necessário, desfibrilação precoce, as chances de sobrevivência diminuem cerca de 10% a cada minuto.
Essa realidade representa um dos maiores desafios da saúde pública nas grandes cidades. Em São Paulo, onde vivem cerca de 12,5 milhões de pessoas, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) conta com 122 ambulâncias, das quais apenas 15 são unidades de suporte avançado, com médico, além de 30 motolâncias equipadas com desfibriladores externos automáticos (DEA). Embora essas equipes desempenhem um trabalho essencial e altamente qualificado, é impossível garantir que uma ambulância chegue em poucos minutos a qualquer ponto de uma metrópole dessa dimensão.
Na prática, isso significa que, em muitas ocorrências, o atendimento especializado leva mais de 20 minutos para chegar. Infelizmente, para uma vítima de parada cardíaca, esse tempo pode ser longo demais. A possibilidade de recuperação depende, em grande parte, dos primeiros minutos após o colapso, quando ainda é possível manter a circulação do sangue por meio das compressões torácicas e restabelecer o ritmo cardíaco com o uso do desfibrilador, quando indicado.
Por esse motivo, as cidades que apresentam os maiores índices de sobrevivência não são necessariamente aquelas que possuem mais ambulâncias, mas sim aquelas que investiram na chamada "corrente de sobrevivência". Isso significa capacitar a população para reconhecer rapidamente uma parada cardíaca, iniciar as manobras de RCP e ampliar o acesso aos desfibriladores externos automáticos em locais públicos de grande circulação.
Escolas, estações de metrô, terminais de ônibus, parques, centros esportivos, prédios públicos, condomínios e empresas são exemplos de locais onde a presença de um DEA pode fazer toda a diferença. Da mesma forma, oferecer treinamento básico de reanimação cardiopulmonar à população deveria ser encarado como uma política permanente de saúde pública. Quanto mais pessoas souberem agir corretamente diante de uma emergência, maiores serão as chances de salvar vidas.
Foi com essa visão que nasceu o Projeto Guardião do Coração, desenvolvido pela Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP) em parceria com a Prefeitura de São Paulo e a Guarda Civil Metropolitana (GCM). A iniciativa parte de um conceito simples e respaldado por evidências científicas: fazer com que o primeiro atendimento chegue antes da ambulância. Para isso, guardas civis metropolitanos recebem treinamento em reconhecimento da parada cardíaca, ressuscitação cardiopulmonar de alta qualidade e utilização do desfibrilador externo automático. Paralelamente, as viaturas passam a ser equipadas com DEA e identificadas para integrar o sistema municipal de resposta às emergências cardiovasculares.
Na prática, quando houver suspeita de uma parada cardíaca, a Central de Emergências poderá acionar simultaneamente o SAMU e a equipe da Guarda Civil Metropolitana mais próxima do local. Como a GCM está distribuída por todas as regiões da cidade e já realiza patrulhamento permanente, existe uma grande possibilidade de que ela seja a primeira a chegar, iniciando imediatamente as manobras de ressuscitação e utilizando o desfibrilador quando necessário, até a chegada da equipe médica. Outro diferencial do projeto é o monitoramento dos atendimentos por meio do protocolo internacional Utstein, considerado referência para avaliação dos resultados em casos de parada cardíaca. Esse sistema permite acompanhar indicadores, medir as taxas de sobrevivência e aperfeiçoar continuamente as estratégias de atendimento, tornando a iniciativa baseada em evidências e orientada por resultados.
O Guardião do Coração não substitui o trabalho do SAMU. Pelo contrário, amplia sua capacidade de salvar vidas ao integrar diferentes setores do poder público em torno de um objetivo comum. É um exemplo de como segurança pública e saúde pública podem atuar de forma complementar, utilizando a estrutura já existente da cidade para oferecer uma resposta mais rápida em uma situação na qual cada minuto faz diferença. A experiência também reforça uma mensagem que vale para qualquer município brasileiro: salvar vidas não depende apenas dos profissionais da saúde. Depende de uma sociedade preparada para agir, de gestores comprometidos com políticas públicas inovadoras e da integração entre diferentes serviços.
*Elton Scuro, cardiologista e diretor da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP)
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