30 de outubro de 2026 - SOCIEDADE DE CARDIOLOGIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
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Quando o coração não dorme

Dr. Luciano Drager

Quando pensamos em infarto, é comum imaginarmos uma pessoa acordada, no meio de suas atividades, sentindo uma forte dor no peito. Mas o coração não conhece horário comercial. Um infarto também pode acontecer enquanto dormimos e, em determinadas circunstâncias, o próprio sono pode contribuir para aumentar o risco de infarto. 

Uma pesquisa da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) ajuda a mensurar o desconhecimento sobre esse tema: apenas 6% dos entrevistados relacionaram os distúrbios do sono ao risco de doenças cardiovasculares. O levantamento também mostrou que o tempo de descanso está longe do ideal para uma parcela significativa da população: 11% disseram dormir quatro horas ou menos por noite, enquanto 49% relataram dormir entre cinco e seis horas. Apenas 40% afirmaram dormir mais de sete horas.

Dormir pouco não é apenas uma questão de disposição no dia seguinte. O sono participa da regulação pressórica, hormonal, metabólica e cardiovascular, e um problema particularmente importante pode influenciar essa relação: a apneia obstrutiva do sono, que pode fazer o coração sofrer durante a noite. 

Estudos que analisaram o horário de início do infarto mostram que, na população geral, esses eventos apresentam um padrão relacionado ao relógio biológico, com maior frequência nas primeiras horas da manhã. Em pessoas com apneia obstrutiva do sono, porém, esse padrão pode mudar. Pesquisas mostram uma concentração maior de infartos durante a madrugada entre pessoas com apneia moderada ou grave. Em um estudo recente, 26,9% dos infartos ocorreram entre 00h e 5h59 entre pacientes com apneia moderada ou grave versus 18,4% entre aqueles sem apneia ou com quadro leve. Outra pesquisa teve resultados ainda mais expressivos: o início do infarto com elevação do segmento ST entre 00h e 5h59 ocorreu em 33% dos pacientes com apneia vs. 15% daqueles sem a doença.

Isso não significa que todo infarto noturno seja provocado pela apneia, mas que, na presença de ronco intenso, pausas respiratórias ou sonolência excessiva durante o dia, essa possibilidade merece ser investigada. Na apneia obstrutiva do sono, a passagem do ar pela garganta se estreita ou fica temporariamente bloqueada durante o sono. A pessoa pode roncar, parar de respirar por alguns segundos e, muitas vezes sem perceber, ter pequenos despertares para voltar a respirar. Esse ciclo pode se repetir dezenas ou até centenas de vezes durante uma noite. Cada episódio representa um pequeno estresse para o organismo. A quantidade de oxigênio no sangue pode cair, enquanto ocorre uma ativação do sistema nervoso simpático, responsável, entre outras funções, por preparar o organismo para situações de alerta. Como consequência, podem ocorrer elevações da pressão arterial e da frequência cardíaca, além de alterações na função dos vasos sanguíneos.

O risco cardiovascular não é exatamente igual durante as 24 horas do dia. O organismo tem um relógio interno, conhecido como ritmo circadiano, que influencia pressão arterial, frequência cardíaca, atividade hormonal, coagulação e funcionamento do sistema cardiovascular. Na população em geral, o infarto tende a ocorrer com maior frequência nas primeiras horas da manhã, entre 6h e 12h. Nesse período, há mudanças fisiológicas, como aumento da atividade do sistema nervoso simpático e maior tendência à formação de coágulos. A apneia pode alterar esse padrão. Entre pessoas com a doença, especialmente casos moderados ou graves associados à queda de oxigênio durante o sono, observa-se uma maior concentração de infartos durante a madrugada. Isso é importante porque mostra que não estamos falando apenas de “dormir bem” no sentido de acordar descansado, mas de um processo biológico fundamental para a proteção cardiovascular.

Muitas vezes, quem percebe os sinais da apneia não é o próprio paciente, mas a pessoa que dorme ao seu lado. Ronco alto e frequente, pausas observadas na respiração, engasgos durante o sono, sono fragmentado, cefaleia ao acordar, sonolência excessiva durante o dia e dificuldade de concentração são alguns sinais que merecem atenção. E o infarto também nem sempre se apresenta da maneira clássica: dor ou pressão no peito, com possível irradiação para braço, ombro, costas ou mandíbula, falta de ar, sudorese intensa, náusea, tontura e cansaço incomum são sinais de alerta. Mas algumas pessoas podem apresentar apenas falta de ar, palpitações ou fadiga intensa. Principalmente entre mulheres e pessoas com diabetes, o infarto pode ocorrer com poucos sintomas ou até sem manifestações evidentes. 

Dormir bem, portanto, não é sinônimo apenas de acordar disposto. É também cuidado com o coração. E, se alguém disser que ronca demais, que para de respirar durante a noite ou que passa o dia cansado apesar de ter dormido, talvez seja hora de levar o assunto a sério. Afinal, enquanto a pessoa dorme, o coração continua acordado para a vida.


O Dr. Luciano Drager é assessor científico da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp). 

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