Qual dieta faz bem ao coração?
Entrevista com a coordenadora geral do Departamento de Nutrição da SOCESP, Nagila Damasceno
1) O ranking anual da U.S. News & World Report elencou as 10 melhores dietas para a saúde e a longevidade, colocando no pódio a dieta mediterrânea, a DASH e a flexitariana. Do ponto de vista cardiovascular, o que essas dietas têm em comum que ajuda a explicar sua associação com maior expectativa de vida?
Nagila Damasceno: Este ranking reafirma o que as evidências científicas têm mostrado sobre os 3 melhores padrões alimentares que temos voltados à prevenção de DCNT e consequente impacto positivo na expectativa de vida. O que une estes padrões alimentares basicamente é o consumo diário de uma alimentação baseada em frutas, verduras e legumes, que fornecem ótimas fontes de fibras alimentares, e reduzido consumo de açúcar, sal/sódio e gorduras de origem animal. O consumo diário de laticínios magros e o baixo consumo de cereais refinados também estão presentes nestes padrões alimentares.
2) Dietas como a mediterrânea e a DASH costumam aparecer em estudos ligados à prevenção de doenças cardiovasculares. Quais são os principais componentes desses padrões alimentares que parecem proteger o coração?
Nagila Damasceno: A dieta DASH tem impacto cientificamente comprovado sobre a melhoria da pressão arterial, contribuindo para otimizar o tratamento da hipertensão, que representa um dos principais fatores de risco para as doenças cardiovasculares. Os benefícios estão associados a componentes como o elevado teor de fibras, cálcio, potássio e um perfil de gorduras mais saudável. Em conjunto, os alimentos fonte destes nutrientes tornam a dieta DASH um aliado importante para a saúde cardiovascular.
3) Muitos padrões alimentares associados à longevidade e à saúde cardiovascular recomendam reduzir o consumo de carne vermelha, especialmente as processadas. O que a evidência científica mostra hoje sobre a relação entre consumo de carne e risco cardiovascular? E com relação a gordura?
Nagila Damasceno: De fato, o equilíbrio no binômio quantidade-qualidade de nutrientes consumidos é essencial à saúde cardiovascular. Embora não haja um limite quantitativo para o consumo de carnes visando à saúde cardiovascular, sabe-se que as carnes, sobretudo, vermelhas, são fontes de gorduras saturadas e colesterol, que contribuem para o desenvolvimento da aterosclerose e, possivelmente, eventos cardiovasculares. Portanto, ao escolher alimentos cárneos, o consumidor deve buscar cortes mais magros, sem pelo e com composição de gorduras melhor. Ao contrário das fontes de gorduras presentes nas carnes bovina, suína e aves, o consumo regular de pescado fornece gorduras com qualidade superior, devendo ser parte integrante do cardápio do brasileiro. Ao contrário, das gorduras saturadas e colesterol encontrados prioritariamente nos alimentos de origem animal, gorduras vegetais, com exceção do óleo de palma, apresentam um conteúdo de ácidos graxos mais favorável à saúde cardiovascular. Esses óleos incluem o óleo de soja, azeite de oliva e outros óleos vegetais.
4) Essas dietas costumam enfatizar vegetais, grãos integrais, leguminosas e gorduras de melhor qualidade, como as do azeite. Quais são os mecanismos pelos quais esse tipo de alimentação pode influenciar fatores como colesterol, pressão arterial, etc?
Nagila Damasceno: Essas dietas melhoram o metabolismo lipídico, reduzindo o chamado "colesterol ruim, LDL-c"e otimizando o "bom colesterol, HDL-c". O consumo diário de alimentos que são ricos nestes nutrientes também melhora o funcionamento intestinal e a microbiota, que contribuem para reduzir o processo inflamatório e oxidativo envolvidos com as doenças cardiovasculares, além reforçar o perfil saudável da microbiota intestinal - essa última atua positivamente no eixo intestino-coração, conferindo mais saúde ao indivíduo.
5) O Atlas Global da Obesidade mostra um aumento preocupante do excesso de peso no mundo. Na sua avaliação, qual é hoje o peso da alimentação nesse cenário quando pensamos especificamente no risco cardiovascular?
Nagila Damasceno: A alimentação inadequada, em qualidade e quantidade, é um dos pilares da epidemia mundial de obesidade que estamos acompanhando. Populações de países ricos consomem excesso de alimentos e com qualidade nem sempre adequada, enquanto populações de países e regiões menos favorecidas economicamente vivem em desertos alimentares (falta de acesso a alimentos de qualidade), enquanto são apresentados pântanos alimentares (ricos em alimentos com elevada densidade calórica, altamente palatáveis, ricos em açúcar, gorduras e sal/sódio). É necessário um trabalho integrado entre governo, sociedade de classe como a SOCESP, indústria de alimentos e centros de pesquisa para mudar essa direção a favor da prevenção e controle duradouro dos casos de obesidade.
6) À medida que envelhecemos, o risco cardiovascular aumenta. A alimentação recomendada para proteger o coração muda ao longo da vida? Há diferenças importantes entre o padrão alimentar ideal para um adulto jovem e para alguém acima dos 60 anos?
Nagila Damasceno: Sim. Há diretrizes que recomendam uma alimentação adequada para cada etapa do ciclo de vida, pois nossas necessidades vão mudando. Em termos de padrão alimentar, as recomendações para a adoção aos padrões Mediterrâneo, DASH e Vegetariano permanecem válidas, devendo ser adaptadas pelo nutricionista a cada etapa da vida.
7) Depois de décadas de pesquisa sobre dieta e prevenção cardiovascular, qual é hoje a principal mensagem que a ciência deixa para a população? Nagila Damasceno: Vá mais à feira livre, cozinhe mais, consuma mais alimentos in natura e minimamente processados, evite excessos de ultraprocessados, evite o álcool, açúcar, sal/sódio e se movimente sempre!
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