26 de fevereiro de 2024 - SOCIEDADE DE CARDIOLOGIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
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Parabéns ao médico que tira o avental e veste a pele do paciente

Parabéns ao médico que tira o avental e veste a pele do paciente


Em 18 de outubro, no Dia do Médico, podemos nos sentir honrados por praticarmos a medicina humanizada, aquela que compreende a dor como se fosse nossa. 


* Ieda Jatene


Em uma entrevista recente, a geriatra e gerontologista Ana Cláudia Quintana Arantes, uma das pioneiras na área de cuidados paliativos no Brasil, hoje também escritora e palestrante, relembrou um episódio de sua época de residente há cerca de 30 anos. Quando passava em visita a um paciente, vítima de cirrose e câncer, ela não se conformou com a cena que presenciou: mesmo com as fortes dores que o homem sentia, seu professor afirmava que nada podia ser feito por se tratar de um caso terminal. O argumento é que o fígado não aguentaria as medicações. Diante daquela incongruência, a estudante questionou: “Mas você não está me dizendo que não tem mais jeito? Que diferença faz salvar o fígado? Por que não damos analgésico?” Era o protocolo versus o bom senso e o senso de humanidade.

O que a então residente Ana Claudia queria implantar ali, em algum momento da década de 1990, talvez ainda sem ligar o nome ao fato, eram os cuidados paliativos. A palavra paliativo deriva do latim pallium, que designava um manto utilizado por cavaleiros para se proteger das tempestades. Na medicina, o termo é sinônimo de proteger o indivíduo de sofrimentos evitáveis graças ao trabalho de uma equipe médica multidisciplinar. A finalidade é  preservar a qualidade de vida do paciente e de seus familiares, minimizando a agonia perante uma doença grave, que fatalmente abreviará aquela trajetória.

Para a sorte de todos nós – porque médicos não escapam de adoecer – a medicina caminha a passos largos na direção da humanização de seus procedimentos, o que impacta positivamente nos cuidados paliativos. Seguindo o que já era realidade na rede privada no país, em 2001, o Ministério da Saúde lançou o Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar (PNHAH), propondo um conjunto de ações integradas para mudar o padrão de assistência ao usuário nos hospitais públicos brasileiros a fim de melhorar a eficácia dos serviços prestados por estas instituições. 

Grupo de Estudos de Cuidados Paliativos da SOCESP

A cardiologia é uma das especialidades que se depara constantemente com a necessidade dos cuidados paliativos. A SOCESP – Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo compreende a necessidade de envolver médicos de outras áreas e demais profissionais da saúde para desenvolver este trabalho. Por isso criou, já há alguns anos, seu Grupo de Estudos de Cuidados Paliativos.  

O grupo orienta intervenções na presença de sintomas que, direta ou indiretamente, prejudiquem o coração: quem tem dores crônicas, por exemplo, tende a não praticar atividades físicas de rotina e, geralmente, apresenta sono de baixa qualidade,  dois fatores que impactam o sistema cardiovascular. Além disso, 20% dos pacientes coronarianos sofrem de ansiedade, percentual que dobra no caso dos hospitalizados. Ansiedade e depressão são males que corroboram com as doenças cardíacas.

Entre as orientações do Grupo de Cuidados Paliativos da SOCESP para estes cenários estão desde psicoterapia associada a medicações até demais terapias adjuvantes, como acupuntura, musicoterapia, sessões de psicologia, massagem, laser terapia, compressas, relaxantes musculares. Dependendo das condições clínicas do paciente, o condicionamento físico orientado por fisioterapeutas e professores de educação física alinhados ao tema são um caminho efetivo para minimizar dores intensas. Algumas destas intervenções também são indicadas para aqueles em estágio de doença cardiovascular avançada, quando as ferramentas tradicionais da cardiologia não podem mais beneficiá-los.

Dores da alma

São as enfermidades da alma, talvez, as que mais causam danos ao corpo e saber entender esta lógica não nos coloca apenas como profissionais humanizados, mas, sobretudo, sagazes: sendo solidários com a dor do próximo – o que já é fundamental –, praticamos uma anamnese que facilitará o diagnóstico e o tratamento da doença propriamente dita. 

Ainda não é a grande maioria dos médicos que tem essa percepção da importância dos cuidados paliativos, embora tenha mudado muito nos últimos anos e em um crescente entendimento. Estão de parabéns as equipes de cuidados paliativos, especialidade impossível de se praticar sem amor. Este profissionais entendem mais do que ninguém que mesmo quando a **indesejada das gentes se avizinha, manter o bem-estar e a dignidade do paciente não é oferecer uma regalia. Mas é um direito humano adquirido. Conhecemos o final de todas as histórias. Mas nem por isso os capítulos devem ser abreviados ou ignorados.

**Consoada


Quando a Indesejada das gentes chegar

(Não sei se dura ou caroável),

talvez eu tenha medo.

Talvez sorria, ou diga:

— Alô, iniludível!

O meu dia foi bom, pode a noite descer.

(A noite com os seus sortilégios.)

Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,

A mesa posta,

Com cada coisa em seu lugar.


(Poema de Manuel Bandeira)


*Ieda Jatene é cardiologista, especialista em Cardiopatias Congênitas e Cardiologia Pediátrica. É a presidente da SOCESP (Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo) para o biênio 2022/2023. 


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