19 de agosto de 2026 - SOCIEDADE DE CARDIOLOGIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
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O desafio do diagnóstico precoce da insuficiência cardíaca

O desafio do diagnóstico precoce da insuficiência cardíaca

Dra. Carolina Casadei dos Santos

A insuficiência cardíaca é uma doença grave, progressiva e que ainda costuma ser diagnosticada tardiamente. Esse atraso no reconhecimento dos sintomas pode comprometer o tratamento, aumentar o risco de hospitalizações e reduzir significativamente as chances de controle da doença.

Na prática clínica, não é raro que pacientes procurem atendimento por dispneia, cansaço excessivo ou dificuldade para realizar atividades do dia a dia e recebam inicialmente o diagnóstico de doenças respiratórias, como pneumonia. Em muitos desses casos, entretanto, o que está por trás dos sintomas é uma insuficiência cardíaca já instalada. Quanto mais tempo o quadro permanece sem diagnóstico e tratamento adequados, maiores são os danos ao coração e mais complexa pode se tornar a recuperação do paciente.

A insuficiência cardíaca é uma das principais causas de internação e morte entre idosos, além de estar associada a uma das maiores crises de saúde pública da atualidade. Em 2021, mais de 55 milhões de pessoas viviam com insuficiência cardíaca em todo o mundo, mais que o dobro em relação a 1990, quando eram cerca de 25,4 milhões de casos. As projeções indicam crescimento contínuo dessa prevalência nas próximas décadas, impulsionado pelo envelhecimento populacional e pelo aumento de fatores de risco como hipertensão arterial, diabetes, obesidade e sedentarismo. Estima-se que o risco de insuficiência cardíaca ao longo da vida seja de aproximadamente 25%, ou seja, uma em cada quatro pessoas poderá apresentar a doença em algum momento.

Além de sua prevalência crescente, a insuficiência cardíaca também evidencia profundas desigualdades em saúde. O estudo internacional PURE, que acompanhou 172.653 participantes de 25 países, demonstrou que a mortalidade após o diagnóstico é significativamente maior em regiões de baixa renda. A letalidade em 30 dias chega a 59% nesses países, enquanto em nações de alta renda é de 11%. Após cinco anos, a mortalidade alcança 77% nos países mais pobres versus 28% nos mais desenvolvidos.

O Brasil apresenta características epidemiológicas próprias. Além dos fatores de risco tradicionais, ainda convivemos com enfermidades importantes, como a doença de Chagas e as doenças valvares reumáticas, que continuam contribuindo para o surgimento da insuficiência cardíaca. Estima-se que cerca de 3 milhões de pessoas vivam com insuficiência cardíaca no país.

Diante desse cenário, a prevenção assume papel fundamental. O controle adequado da pressão arterial, do diabetes, do colesterol, a prática regular de atividade física, a manutenção do peso saudável, a alimentação equilibrada e a cessação do tabagismo estão entre as principais medidas para reduzir o risco da doença. Outro aspecto que merece atenção especial é a vacinação contra a gripe, especialmente entre idosos e pacientes com doenças cardiovasculares, pois infecções respiratórias podem desencadear descompensações cardíacas importantes, aumentando o risco de hospitalizações e complicações. 

Embora a insuficiência cardíaca não tenha cura, os avanços da medicina têm permitido um controle cada vez mais eficaz da doença. Atualmente, existem medicamentos que reduzem sintomas, diminuem hospitalizações, melhoram a qualidade de vida e aumentam a sobrevida dos pacientes. Em situações específicas, dispositivos implantáveis, procedimentos intervencionistas e até transplante cardíaco podem ser indicados. O sucesso do tratamento, porém, depende diretamente do diagnóstico precoce, da adesão às medidas prescritas e do acompanhamento médico contínuo.

A conscientização da população e a capacitação dos profissionais de saúde são essenciais para mudar esse cenário. Com esse objetivo, a Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) realiza campanhas permanentes de conscientização e prevenção da insuficiência cardíaca por meio de suas redes sociais, disponibilizando informações, vídeos e podcasts voltados à população e aos profissionais da saúde. A entidade também desenvolve o Projeto Insuficiência Cardíaca, um conjunto de cursos on-line destinados à capacitação de médicos, enfermeiros, farmacêuticos e outros profissionais de nível superior que atuam na rede pública estadual e municipal de saúde. O objetivo é qualificar a assistência aos pacientes e contribuir para a redução da mortalidade hospitalar associada à doença. A iniciativa já conta com a adesão do Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo (Cosems/SP), fortalecendo uma rede colaborativa de formação continuada voltada a melhorias no cuidado cardiovascular.


A Dra. Carolina Casadei dos Santos é coordenadora do Projeto Insuficiência Cardíaca da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp).

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