Dra. Ieda Jatene; Dra. Salete Nacif
Durante décadas, a mamografia foi reconhecida exclusivamente como uma ferramenta essencial para o rastreamento do câncer de mama. Agora, um estudo publicado no periódico European Heart Journal[1] amplia significativamente o potencial desse exame ao demonstrar que ele também pode contribuir para identificar mulheres com maior risco de doença cardiovascular.
Conduzida por cientistas da Emory University e da Mayo Clinic, nos Estados Unidos, a pesquisa utilizou algoritmos de inteligência artificial (IA) para analisar um achado frequentemente descrito nos laudos de mamografia: as calcificações arteriais mamárias. Até então consideradas um achado incidental, sem relevância para a investigação do câncer, essas calcificações mostraram refletir alterações que também ocorrem nas artérias do coração e do cérebro.
O estudo acompanhou 123.762 mulheres por tempo mediano de sete anos e demonstrou que a quantificação automatizada dessas calcificações ajudou a predizer, de forma independente, os riscos de morte e de eventos cardiovasculares graves, como infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e insuficiência cardíaca. Um dos principais achados foi a existência de uma relação direta entre a quantidade de calcificação identificada e o risco cardiovascular. Quanto maior a área ocupada pelas calcificações arteriais na mama, maior foi a incidência de eventos cardiovasculares ao longo do acompanhamento. As mulheres com maior carga de calcificação apresentaram risco aproximadamente três vezes maior de infarto, AVC ou insuficiência cardíaca quando comparadas àquelas sem calcificações significativas.
Outro aspecto importante observado pelos pesquisadores foi que esse marcador manteve seu poder preditivo mesmo após o ajuste para fatores clássicos de risco, como hipertensão arterial, diabetes e colesterol elevado. Em outras palavras, a presença das calcificações arteriais mamárias acrescentou informações relevantes para a avaliação do risco cardiovascular além das variáveis tradicionalmente utilizadas na prática clínica.
O trabalho também chama a atenção pelo impacto em mulheres mais jovens. Embora o risco cardiovascular seja geralmente associado ao envelhecimento, os pesquisadores verificaram que o valor prognóstico das calcificações arteriais mamárias permaneceu significativo inclusive entre mulheres de até 50 anos, indicando que a oportunidade para identificação precoce pode surgir antes do aparecimento dos sintomas ou das manifestações clínicas da doença.
Os autores destacam ainda que essa estratégia representa uma forma de "rastreamento oportunista". Como milhões de mulheres já realizam mamografias periodicamente para prevenção do câncer de mama, a utilização da IA para avaliar simultaneamente as calcificações arteriais permitiria incorporar uma nova informação clínica sem necessidade de novos exames, exposição adicional à radiação ou aumento de custos para o sistema de saúde.
É importante destacar que a IA não substitui a avaliação médica. Sua principal contribuição é a ampliação da capacidade de detectar padrões que podem passar despercebidos na análise convencional, oferecendo ao cardiologista mais um elemento para identificar mulheres que devem passar por investigação mais aprofundada e intervenções preventivas precoces.
A integração entre diferentes áreas da medicina é um dos caminhos mais promissores para reduzir a mortalidade feminina por doenças cardiovasculares, que continuam sendo a principal causa de morte entre as mulheres. Transformar um exame já incorporado à rotina em uma ferramenta adicional para prevenção cardiovascular pode significar um avanço importante na medicina preventiva.
Outubro Rosa também é tempo de cuidar do coração
Ao longo do mês de outubro, a Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), por meio do Socesp Mulher, promoverá uma campanha especial de conscientização para reforçar que, para as mulheres, a prevenção deve ir além do câncer de mama. A iniciativa busca lembrar que o cuidado com o coração deve caminhar lado a lado com a realização da mamografia e dos demais exames preventivos. Durante todo o mês, a Socesp publicará conteúdos educativos em suas redes sociais e artigos em seu site, além de exibir de entrevistas, vídeos e podcasts com especialistas abordando a importância da prevenção das doenças cardiovasculares nas mulheres e a adoção de hábitos saudáveis para uma vida mais longa e com mais qualidade.
As Dras. Ieda Jatene e Salete Nacif coordenam o projeto Socesp Mulher da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp).
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