23 de julho de 2026 - SOCIEDADE DE CARDIOLOGIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
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Maior uso de estatinas e anti-hipertensivos é avanço, mas não elimina os riscos da obesidade

Dr. Andrei Sposito


Um amplo estudo publicado recentemente no periódico The Lancet reforça uma mudança importante na abordagem clínica da obesidade. Pessoas com excesso de peso estão recebendo com maior frequência tratamento para hipertensão arterial e dislipidemia, o que contribuiu para reduzir as diferenças nos níveis de pressão arterial e colesterol em relação aos indivíduos com índice de massa corporal (IMC) dentro da faixa de normalidade. [1] Apesar do avanço, especialistas alertam que controlar esses fatores de risco não é suficiente para neutralizar as múltiplas consequências da obesidade.

A pesquisa, conduzida pela NCD Risk Factor Collaboration (NCD-RisC), reuniu dados de mais de 110 estudos populacionais, envolvendo aproximadamente 1 milhão de pessoas acompanhadas ao longo de 34 anos em Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Tailândia, Finlândia, Inglaterra e Estados Unidos. Os resultados mostram que, especialmente entre adultos de meia-idade e idosos, as diferenças nos níveis de pressão arterial e colesterol entre pessoas com obesidade e indivíduos com IMC dentro da normalidade diminuíram significativamente nas últimas décadas.

O trabalho confirma uma mudança que já vinha sendo observada na prática clínica. O estudo mostra que, à medida que as pessoas ganharam peso, houve aumento da utilização de tratamentos hipolipemiantes e anti-hipertensivos. Isso significa que a comunidade médica passou a reconhecer com mais clareza os riscos associados à obesidade e a tratar precocemente essas alterações metabólicas. Esse é um aspecto positivo da evolução do cuidado cardiovascular, pois os médicos e a própria população entenderam que viver com obesidade significa estar sob maior risco cardiovascular e que esse risco precisa ser tratado.

Embora os resultados apontem para melhor controle da pressão arterial e dos níveis de lipídios, seria um erro interpretar esses achados como uma redução do impacto da obesidade na saúde. A obesidade e o sobrepeso continuam sendo quadros crônicos complexos, portanto controlar colesterol e pressão arterial reduz parte do risco cardiovascular, mas não remove os efeitos adversos do excesso de peso. Além das doenças cardiovasculares, a obesidade permanece associada a um amplo espectro de complicações, entre elas doença renal crônica, apneia obstrutiva do sono, osteoartrose, demência e diversos tipos de câncer.

O estudo representa um primeiro passo para compreender como a maior utilização desses tratamentos pode modificar a história natural da doença, mas ainda não responde à principal pergunta clínica. O significado dessa mudança ainda é desconhecido: o trabalho não mostra qual é a magnitude da redução dos eventos cardiovasculares decorrente do maior uso de medicamentos, e esse será um passo importante para pesquisas futuras.

No artigo, os autores sugerem que a redução das diferenças metabólicas entre indivíduos com e sem obesidade decorre principalmente da maior utilização de estatinas e medicamentos anti-hipertensivos, e não da redução da prevalência de obesidade.

Essa constatação reforça que tratar apenas as consequências metabólicas não basta. O cenário ideal seria observar não apenas aumento da prescrição, mas também maior acesso ao tratamento específico para obesidade, redução da necessidade de medicamentos para diabetes e diminuição de complicações como câncer, demência, apneia do sono e doenças osteoarticulares.

Apesar dos avanços terapêuticos, nenhuma estratégia supera a prevenção do excesso de peso, que continua sendo a abordagem mais eficaz e completa. Quando a prevenção não é suficiente, o tratamento específico da obesidade deve fazer parte do manejo clínico. Hoje já dispomos de medicamentos que promovem perda de peso significativa e, ao mesmo tempo, reduzem complicações metabólicas e até desfechos como infarto e AVC. Vivemos um cenário muito mais favorável para conter tanto a obesidade quanto suas consequências.


O Dr. Andrei Sposito é cardiologista e diretor científico da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp). 

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