26 de fevereiro de 2024 - SOCIEDADE DE CARDIOLOGIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
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Combate ao desperdício alimentar também faz bem ao coração

Combate ao desperdício alimentar também faz bem ao coração


*Juliana Kato 



Bata duas claras em ponto de neve e leve à geladeira. No liquidificador bata as gemas, duas xícaras de leite desnatado, duas colheres (sopa) de margarina sem sal, cascas de quatro bananas e três xícaras de açúcar demerara. Misture essa massa em uma tigela e incorpore três xícaras de farinha de rosca. Por último, coloque as claras em neve e uma colher de sopa de fermento. Despeje o conteúdo em uma assadeira untada e enfarinhada. Leve ao forno médio por cerca de 40 minutos. 


Você não leu errado: a receita de bolo acima utiliza apenas a casca da banana, aquela que descartamos sem pensar duas vezes, cometendo um duplo erro: ela contém fibras, potássio, cálcio, luteína, ômega-3, ômega-6 e magnésio, além de uma quantidade de minerais que excede os da própria fruta. Em outras palavras, estamos jogando fora o que faz bem para a saúde, enquanto 10% da população se encontra em estágio de insegurança alimentar, termo que designa incerteza em relação ao acesso à próxima refeição ou à qualidade nutricional do que será consumido. De acordo com o relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2023, divulgado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, 21,1 milhões de brasileiros estavam em situação de insegurança alimentar grave no ano passado.


Trata-se da realidade do país que é um dos principais produtores de alimentos do mundo, mas que também figura na lista dos que mais desperdiçam. Segundo o IBGE, nada menos que 30% de toda produção alimentícia brasileira – o equivalente a 46 milhões de toneladas ao ano – não vai para o prato de ninguém e geram custos econômicos (desperdício estimado em R$ 61,3 bilhões/ano), sociais e ambientais.


O esperdício ocorre por toda a cadeia – plantio, colheita, transporte, comércio e distribuição –, tanto devido ao mau planejamento, falta de infraestrutura adequada para armazenamento/transporte, aparência (o que é feio é descartado) como por problemas climáticos. Mas a logística desta indústria não é a única culpada. As perdas mais relevantes acontecem dentro de casa, com compras excessivas e sem finalidade específica na rotina de refeições ou por descuido na conservação. Estima-se que 60% de todo desperdício seja responsabilidade das famílias.

Virando a mesa

No âmbito familiar, atitudes simples podem reverter este cenário de descarte. O primeiro passo é mudar nossa concepção sobre comida, o que não é tão simples porque são raízes culturais. Crescemos escutando que cascas, talos e sementes de legumes, verduras e frutas devem ir para o lixo e esse conceito precisa ser revisto e não apenas em prol do consumo consciente, sobretudo em prol da nossa saúde, incluindo a cardiovascular.

Sabemos que um dos fatores de risco para as doenças cardíacas é servido à mesa: gorduras, doces ou sal em excesso estão na lista dos inimigos do coração, apesar de participarem ativamente dos nossos hábitos alimentares. Enquanto isso, vitaminas, minerais e fibras, presentes em talos, sementes e cascas, são sumariamente excluídos do cardápio. Por preconceito ou desconhecimento, jogamos no lixo um remédio preventivo eficiente contra doenças cardiovasculares ao não fazermos o aproveitamento integral dos alimentos.

E quem imagina que estamos falando de comidas sem graça e difíceis de engolir, não considera as  possibilidades: cascas de cenoura, chuchu, abóbora, abobrinha e batata se transformam em deliciosos chips quando assados com temperos naturais e são ótima pedida para aquela fome fora de hora.  As mesmas cascas são a base de sopas nutritivas e saborosas. 


Já as cascas de abacaxi, maçã, laranja e limão, acrescidas de cravo e canela, viram chás aromáticos. Sementes, por sua vez, como as de abóbora e melão, vão ao forno e ficam crocantes para serem acrescidas em saladas, por exemplo. Como já vimos, a casca de banana é ingrediente principal para alguns bolos. Entrecascas (parte branca) de melancia, melão e maracujá – ricas em fibras – são excelentes para serem batidas como vitaminas. Talos também são versáteis. Os de agrião, espinafre, salsa, brócolis, alho-poró, couve e couve-flor, quando refogados, integram omeletes e incrementam o arroz. In natura vão para saladas e sucos.


Vale usar a imaginação – e o arsenal de receitas disponíveis na internet – e igualmente reaproveitar sobras: feijão e arroz? Bolinhos; restos de frango assado? fricassé;  carnes e legumes? Torta. E assim por diante.


Pensar a alimentação desta forma cria um ciclo virtuoso, que contribui para combater a fome e o desperdício, promovendo uma dieta variada e benéfica para o sistema cardiovascular e, de quebra, ainda previne a obesidade, outra inimiga da boa saúde. Literalmente, comidas para comer com o coração.



*Juliana Kato é nutricionista e diretora executiva do Departamento de Nutrição da SOCESP – Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo.


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