19 de agosto de 2026 - SOCIEDADE DE CARDIOLOGIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
COMPARTILHE:                          COMPARTILHE:

A relação entre sono, apneia e infarto

A relação entre sono, apneia e infarto

Pesquisa da SOCESP revelou que apenas 6% dos entrevistados relacionam os distúrbios do sono com o risco de doença cardiovascular. O mesmo levantamento questionou quantas horas por dia de sono as pessoas tinham habitualmente: 11% disseram 4 horas ou menos; 49% de 5 a 6 horas; e 40% mais de 7 horas de sono. Para esclarecer o assunto, preparamos um perguntas e respostas com o cardiologista Luciano Drager, assessor científico da SOCESP – Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo


É possível ter um infarto durante o sono? Com que frequência?

Luciano Drager: Sim. Embora muita gente associe o infarto às atividades do dia, ele também pode acontecer enquanto a pessoa está dormindo. Estudos mostram que cerca de 20% dos infartos ocorrem durante a noite, principalmente entre meia-noite e 1h da manhã.

Nas pessoas com apneia obstrutiva do sono, condição em que a respiração para e volta várias vezes durante o sono, esse risco é ainda maior. Nesses casos, aproximadamente 27% dos infartos acontecem entre meia-noite e 6 horas da manhã.

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9396423/

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39868516/


Por que o infarto pode acontecer durante o sono? Existe uma explicação?

Luciano Drager: Sim. A principal explicação está relacionada à apneia obstrutiva do sono. Durante o sono, pessoas com apneia tem um estreitamento na passagem do ar na região da garganta, gerando não somente o roncos mas pequenas pausas na respiração. O corpo recebe menos oxigênio, ocorre uma ativação intensa da adrenalina, a pressão arterial aumenta e o coração passa por um esforço maior, principalmente durante a fase REM do sono (Rapid Eye Movement, que significa "movimento rápido dos olhos"). Esse conjunto de fatores pode favorecer a falta de oxigênio no músculo cardíaco e desencadear um infarto (especialmente em pessoas susceptíveis).

Além disso, pesquisas mostram que existe um mecanismo biológico ligado ao relógio interno do organismo (ritmo circadiano) que pode influenciar a intensidade da lesão provocada pelo infarto, dependendo do horário em que ele acontece.

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18652941


O risco de infarto muda ao longo do dia?

Luciano Drager: Sim. O organismo segue um ritmo biológico de 24 horas, chamado ritmo circadiano, que influencia o funcionamento do coração.

Na população em geral, os infartos são mais frequentes pela manhã, entre 6 horas e meio-dia, período em que ocorre um aumento natural de hormônios do estresse e uma maior tendência de formação de coágulos.

Já nas pessoas com apneia obstrutiva do sono grave, esse padrão pode ser diferente, com maior ocorrência de infartos durante a noite.


O infarto que acontece durante o sono é sempre fatal?

Luciano Drager: Não. Muitas pessoas sobrevivem a um infarto que acontece durante o sono. No entanto, quando o paciente tem apneia do sono com queda importante dos níveis de oxigênio durante a noite, o risco de morte súbita é quase duas vezes maior. Por isso, quando alguém sofre um infarto durante o sono, é importante investigar se existe apneia obstrutiva do sono. Mas prevenir e tratar a apneia antes que o infarto acontece é o ideal.

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28209226/


Quais sinais de alerta podem aparecer?

Luciano Drager: Os sintomas mais conhecidos são dor ou pressão no peito, que pode se espalhar para a mandíbula, braço, ombro ou costas. Também podem surgir falta de ar, suor intenso, cansaço fora do comum, náuseas e tontura.

É importante lembrar que o infarto nem sempre se manifesta da forma clássica. Algumas pessoas podem sentir apenas palpitações, cansaço intenso ou falta de ar. Em alguns casos, principalmente entre mulheres e pessoas com diabetes, o infarto pode até ocorrer sem sintomas evidentes.

BUSCA EM NOTÍCIAS




Siga-nos