31 de agosto de 2025 - SOCIEDADE DE CARDIOLOGIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
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Quais são as principais causas de doenças e mortes no mundo? Elas afetam mais homens ou mulheres?

Entrevista com a presidente da SOCESP e integrante do SOCESP Mulher, Maria Cristina Izar


“A incidência de doenças e mortes foi maior em homens do que em mulheres para 13 das 20 principais causas de lesões e enfermidades, incluindo COVID-19, lesões no trânsito, problemas cardíacos, doenças pulmonares e doenças hepáticas”, relataram pesquisadores em estudo publicado na revista The Lancet Public Health*.


Os pesquisadores analisaram os dados do estudo Global Burden of Disease de 2021, o maior e mais abrangente esforço para rastrear doenças e mortes em todo o mundo. O trabalho se concentrou nas diferenças de saúde entre condições que afetam homens e mulheres, excluindo doenças específicas de gênero, como câncer de ovário ou de próstata.


“As mulheres tendem a viver mais, mas sofrem níveis mais elevados de doenças ao longo da vida”, acrescentaram os pesquisadores. Os resultados ainda revelaram que as mulheres sofrem mais do que os homens com problemas musculares e ósseos, de saúde mental e dores de cabeça.


A presidente da SOCESP, Maria Cristina Izar, concedeu uma entrevista ao jornalista também da SOCESP, José Luchetti, para comentar o estudo. 


Referências:

https://www.thelancet.com/journals/lanpub/article/PIIS2468-2667(24)00053-7/fulltext


Como você avalia a diferença significativa na carga de doenças entre homens e mulheres revelada pelo estudo, especialmente no que diz respeito à Covid-19 e às doenças cardíacas, que afetam mais os homens?

Maria Cristina Izar: A diferença marcada na carga de doença entre homens e mulheres reforça a urgência de políticas de saúde mais equilibradas e equitativas, sensíveis às características biológicas e sociais de cada gênero.


O estudo também aponta que mortes por acidentes de trânsito cirrose, câncer de pulmão são mais comuns em homens. Por quê? 

Maria Cristina Izar: Essas causas refletem comportamentos de risco mais prevalentes entre homens:

 Acidentes de trânsito: maior exposição a situações de risco, como condução sob efeito de álcool ou em alta velocidade.

 Cirrose: relacionada ao consumo excessivo de álcool, ainda mais comum nos homens em várias regiões.

 Câncer do pulmão: associado ao tabagismo, historicamente mais frequente nos homens.


As intervenções de saúde pública devem focar na prevenção primária, incluindo campanhas de redução de consumo de álcool, tabaco e segurança no trânsito voltadas especialmente ao público masculino.



O estudo aponta que mulheres sofrem mais com condições não fatais como dor lombar, transtornos mentais e demência. O que explicaria isso? 


Maria Cristina Izar: As causas são multifatoriais:

 Biológicas: maior prevalência de condições musculoesqueléticas em mulheres, ligadas a fatores hormonais e estruturais.

 Sociais: mulheres ainda assumem grande parte das tarefas de cuidado e trabalho informal, o que aumenta o stress e a sobrecarga física e emocional.

 Expectativa de vida maior: vivem mais, o que aumenta a incidência de condições como a demência.


Por que recebem menos atenção do poder público?


Maria Cristina Izar: São condições não fatais, muitas vezes "invisíveis" nas estatísticas de mortalidade. Menor financiamento para a saúde mental e reabilitação. Existe um estigma associado a distúrbios mentais ou dor crônica, especialmente em mulheres.



A pesquisa mostra que as disparidades de saúde entre os sexos começam na adolescência e aumentam com a idade. O que poderia ser feito para mitigar essas desigualdades?


Maria Cristina Izar: Várias ações poderiam ser feitas, como:


 Educação em saúde desde cedo, nas escolas, com conteúdos sensíveis a gênero.

 Promoção da saúde mental e emocional entre adolescentes.

 Acesso equitativo a serviços preventivos, especialmente em saúde reprodutiva, sexual e comportamentos de risco.

 Políticas públicas que integrem o olhar de gênero, incluindo programas de rastreio diferenciados.


Esses resultados reforçam aquela máxima de que o homem não vai ao médico ou tem mais dificuldade de aderir aos tratamentos? 


Maria Cristina Izar: Sim, o estudo reforça essa percepção. As razões incluem:

 Construções sociais da masculinidade, que associam procurar ajuda à fraqueza. Assim, o homem procura menos assistência médica.

 Menor conhecimento sobre saúde e sintomas.

 Ambientes de saúde pouco acolhedores para homens, com foco predominante em saúde da mulher e da criança.

 A aderência a tratamentos também tende a ser menor entre homens, muitas vezes por negligência, minimização de sintomas ou falta de acompanhamento regular.


Como mudar esse cenário?


Maria Cristina Izar: Vejo ações distintas para homens e mulheres.


Para os homens: 

 Promover campanhas direcionadas ao público masculino, com linguagem acessível e menos medicalizada. 

 Serviços de saúde mais flexíveis, com horários e locais que facilitem o acesso de homens trabalhadores.

 Profissionais capacitados para abordar a saúde masculina sem preconceitos ou estigmas.

 Promover figuras masculinas públicas que falem abertamente sobre saúde, quebrando o tabu.

 Estas reflexões mostram como a saúde deve ser pensada com um olhar atento às diferenças de género, idade e contexto social.


Nas mulheres: Para mudar o cenário das mulheres em relação à saúde — especialmente no que diz respeito às condições não fatais, crônicas e mentais, que são mais prevalentes nesse grupo — é essencial adotar uma abordagem estratégica, intersetorial e sensível ao género. Eis os principais eixos:


1. Reforçar o financiamento e a visibilidade de condições não fatais

Dor lombar, ansiedade, depressão e demência não matam imediatamente, mas geram uma carga imensa de sofrimento e perda de qualidade de vida.

É necessário:

Integrar essas doenças nos planos nacionais de saúde.

Ampliar o acesso à fisioterapia, psicoterapia e cuidados paliativos no SUS e sistemas públicos.

Investir em pesquisa clínica focada em mulheres — tradicionalmente sub-representadas em estudos.


2. Ampliar e adaptar o acesso aos serviços

Criar estruturas de atendimento integradas, com atenção à saúde da mulher além da gestação e parto.

Disponibilizar horários flexíveis e apoio para cuidadoras, já que muitas mulheres deixam de cuidar da própria saúde por cuidar de outros.

Atendimento centrado na pessoa, com escuta ativa e acolhimento de queixas como dor crónica, fadiga e sofrimento emocional.


3. Intervenções preventivas desde a adolescência

Educação em saúde nas escolas com foco em bem-estar físico e emocional, imagem corporal, saúde mental e autocuidado.

Combate à violência de género e seus efeitos duradouros na saúde física e mental.

Promoção de autonomia e empoderamento feminino, inclusive no acesso à contracepção


4. Formação de profissionais de saúde com recorte de gênero

Capacitação contínua em reconhecimento de sintomas atípicos em mulheres (como os de enfarte, muitas vezes subdiagnosticados); avaliação de dores e queixas crônicas com seriedade, evitando o estigma de "exagero" ou "fraqueza"; saúde mental com abordagem integrada ao ciclo de vida feminino.


5. Políticas públicas com foco intersetorial

 Saúde e trabalho: garantir condições de ergonomia, licenças adequadas, e combate ao assédio.

 Saúde e proteção social: apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade, como mães solo, vítimas de violência, e idosas.

 Saúde e tecnologia: promover o uso de aplicativos e telemedicina adaptados à realidade e à linguagem das mulheres.



A SOCESP tem alguma iniciativa focada no público feminino?


Maria Cristina Izar: Mudar o cenário exige olhar para as mulheres como protagonistas da própria saúde, e não apenas como reprodutoras ou cuidadoras. Uma abordagem centrada no gênero promove mais justiça, eficiência e resultados duradouros na saúde pública.


O programa SOCESP Mulher, promovido pela Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, visa empoderar mulheres e promover cuidados específicos à saúde feminina, com foco especial na prevenção de doenças cardiovasculares.

Principais Ações do SOCESP Mulher: campanhas de Conscientização ao longo de todo o ano; durante o Outubro Rosa, a SOCESP lançou o projeto Coração Feminino em parceria com o CONDEMAT (Consórcio de Desenvolvimento dos Municípios do Alto Tietê), visando conscientizar a população que vive na região sobre as doenças cardiovasculares em mulheres; série Educativa “Desafios Femininos Atuais”, composta por episódios abordando temas relevantes à saúde da mulher, como prevenção de doenças cardíacas, saúde mental e bem-estar geral; ações de valorização da Mulher Cardiologista e Profissional de Saúde; e, finalmente agora em 2025, o SOCESP Mulher inicia o programa Pulso Feminino, destinado ao público feminino leigo, com uma série de vídeos para informar a mulher sobre temas relevantes sobre saúde cardiovascular da mulher.

Todas essas iniciativas refletem o compromisso da SOCESP em promover a saúde feminina de forma abrangente, reconhecendo as especificidades e necessidades das mulheres em diferentes fases da vida.


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