Entrevista com a cardiologista e presidente da SOCESP, Maria Cristina Izar e com a nutricionista coordenadora geral do Departamento de Nutrição da SOCESP, Valéria Machado
O que são os agonistas GLP-1? Qual a função dessa classe de medicamentos?
Maria Cristina Izar: Esses medicamentos fazem as vezes do hormônio natural agonista do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon-1 (GLP-1) e por isso são chamados “agonistas GLP-1”. São usados para tratar diabetes tipo 2 e obesidade.
Como agem os agonistas GLP-1?
Maria Cristina Izar: Eles reduzem a glicemia ao promover a secreção de insulina, retardam o esvaziamento gástrico, diminuindo o apetite, e inibem a secreção do glucagon, hormônio produzido no pâncreas que aumenta os níveis de açúcar no sangue.
Qual é o impacto para o sistema cardiovascular?
Maria Cristina Izar: Para quem tem diabetes e (ou) obesidade os agonistas GLP-1 provocam uma reação em cadeia em prol do sistema cardiovascular: baixam a pressão arterial e melhoram o perfil lipídico, além de atenuar a disfunção endotelial e potencializar a função ventricular esquerda naqueles com insuficiência cardíaca. Por isso, tais fármacos são associados à redução no risco de eventos, como infartos e AVC.
Podem ocorrer reações adversas com o tratamento?
Valéria Machado: Sim. Ao induzirem a saciedade, a perda de peso poderá ser excessiva, levando à necessidade de aumento de ingestão calórica e (ou) ajustes na dosagem. O retardo no esvaziamento gástrico é capaz de causar náuseas, vômitos e diarreia. Quando essas ocorrências são constantes, chegam a afetar a absorção de nutrientes.
Existe a necessidade de um trabalho multidisciplinar entre endocrinologista/cardiologista e nutricionista?
Valéria Machado: Com certeza. Este trabalho em conjunto proporcionará perda de peso com mais qualidade, quando o paciente faz uso dos agonistas dos receptores GLP-1. O endocrinologista gerencia o protocolo farmacológico e ajusta doses; o cardiologista monitora benefícios cardiovasculares e complicações e o nutricionista atua diretamente na educação nutricional, na prevenção da perda de massa magra e promoção de hábitos de vida saudáveis. A interação entre as especialidades evita que o paciente interrompa precocemente o tratamento – o que ocorre em até 12% dos casos por efeitos adversos gastrointestinais – e garante que a perda de peso seja sustentada, focada na redução de gordura, e não de massa muscular.
Como o paciente evita a perda de massa magra/muscular?
Valéria Machado: A alimentação adequada fará toda a diferença e esta preocupação é real: durante o uso dos agonistas de GLP-1, estudos mostram que até 40% do peso perdido pode envolver massa muscular se não houver cuidado. Entre as ações alimentares para combater essa perda estão aumentar a ingestão de proteínas (carnes magras, peixes, ovos, iogurte grego, tofu e leguminosas); distribuir proteínas ao longo do dia (em todas as refeições) para estimular síntese proteica de forma contínua; garantir um aporte mínimo de 1,2 a 1,5 gramas de proteína por kg de peso corporal, especialmente em idosos; associar alimentação à prática de exercícios resistidos (musculação), que potencializam o anabolismo muscular e o nutricionista também poderá avaliar a necessidade de utilizar suplementos para completar a dieta.
A alimentação adequada contribui para combater efeitos colaterais os efeitos colaterais que o uso dos inibidores pode acarretar?
Valéria Machado: Sim. Algumas estratégias são essenciais para minimizar os efeitos gastrointestinais adversos causados pelos agonistas de GLP-1, como náuseas, constipação, diarreia e vômitos. Entre elas: fracionar refeições e comer devagar; preferir alimentos de fácil digestão e baixo teor de gordura (como legumes cozidos e carnes magras grelhadas); evitar comidas picantes, industrializadas, muito doces e alimentos gordurosos; ingerir líquidos em pequenos goles, especialmente líquidos claros e frescos e incorporar alimentos que ajudem a reduzir náuseas, como chá de gengibre.
Qual o papel da reeducação alimentar durante o tratamento com os inibidores?
Valéria Machado: A reeducação alimentar é o pilar central do sucesso a longo prazo no tratamento com GLP-1. Sem mudanças de hábitos, há alto risco de reganho de peso após o término do uso da medicação. Por isso, o paciente precisa ser orientado a reconhecer sinais de fome e saciedade, escolher alimentos saudáveis, evitar distrações nas refeições e manter porções controladas. Mudanças no estilo de vida — como incorporar exercício físico regular e melhorar a qualidade alimentar — são tão ou mais importantes que o próprio uso da medicação.
Na sua experiência, quem busca perda de peso via inibidores de GLP-1 está buscando em primeiro lugar a estética ou minimizar riscos cardiovasculares que a obesidade pode trazer?
Valéria Machado: A maioria dos pacientes, inicialmente, busca o uso dos agonistas de GLP-1 motivados por questões estéticas: redução de peso para melhora da aparência, autoestima, mobilidade e bem-estar geral. No entanto, conforme trabalhamos na educação em saúde, muitos passam a entender que a obesidade é uma condição inflamatória crônica e um fator de risco importante para doenças cardiovasculares, como infarto, AVC e insuficiência cardíaca. Portanto, a atuação da equipe multiprofissional é essencial para transformar essa motivação estética inicial em um projeto de saúde a longo prazo, com foco na qualidade e na longevidade.
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