Avaliação pré-participação em atletas
Luciana Janot é assessora científica da SOCESP – Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo e referência Médica do Centro de Reabilitação e Medicina Esportiva do Hospital Israelita Albert Einstein
Quando assistimos qualquer atividade esportiva na TV ou presencialmente, ficamos fascinados com o potencial que cada atleta pode alcançar, independente da modalidade executada. Não é à toa que atletas são vistos pelo público como seres humanos diferenciados, com saúde acima da média. E é exatamente essa percepção que nos deixa estarrecidos quando nos deparamos com eventos súbitos. Ficamos sem entender ao certo. Como alguém capaz de tamanho desempenho pode apresentar uma morte súbita?
Na Medicina do Exercício e Esporte a avalição pré-participação esportiva é considerada um importante pilar preventivo, sendo um dos temas mais debatidos da área. Apesar dos inúmeros benefícios do exercício físico na saúde física, metabólica e mental, não podemos esquecer que ele é também um potencial estressor fisiológico e, na presença de uma doença de base desconhecida, acaba por ser um gatilho para esses eventos.
Por ser a morte súbita um evento raro, com incidência variada, a depender da população estudada, existem divergências sobre o modelo ideal dessa avaliação pré-participação. No Brasil, a atualização da Diretriz em Cardiologia do Esporte e Exercício da Sociedade Brasileira de Cardiologia e Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e Esporte1 preconizam a avalição clínica cardiovascular e o eletrocardiograma em repouso como classe I de indicação e nível de evidência A para atletas competitivos profissionais. Nesses atletas, o teste ergométrico, ao se iniciar a temporada esportiva, é considerado classe IC e, quando disponível, preferencialmente, o teste cardiopulmonar, como IB. Apesar de conhecermos a existência de adaptações estruturais cardíacas relacionadas ao tipo, intensidade e volume de exercício executado, o ecocardiograma em repouso é considerado modalidade diagnóstica confirmatória em casos suspeitos, após a avaliação pré-participação inicial com história, exame físico e eletrocardiograma. Já para atletas amadores, aqueles que não tem seu sustento atrelado ao esporte, a indicação do eletrocardiograma em repouso mantém-se como IA, mas para o teste ergométrico as evidências que suportem valor são mais baixas e a indicação para o teste, antes de se iniciar um programa de exercícios de alta intensidade passa a ser IIa, nível de evidência A. Entretanto, é importante ressaltar que é exatamente nessa parcela de atletas que podemos nos deparar com a necessidade de investigação mais aprofundada, pois apesar de não serem profissionais, muitas vezes possuem carga de treinamento similar, mas com uma periodização, alimentação e recuperação inadequadas, somadas a uma vida social e de trabalho não condizentes com as necessidades do organismo para se recuperar, quando o objetivo é desempenho. Portanto, na prática, muitas vezes a avaliação realizada acaba sendo muito parecida com a de atletas profissionais e dependente da avaliação clínica inicial e do julgamento e experiência do avaliador. É interessante ressaltar que o fato de serem atletas não os eximem de possuírem fatores de risco. Em amostra de atletas amadores e profissionais de um ambulatório de cardiologia do exercício e esporte, identificou-se que 31% dos homens e 36% das mulheres possuíam dislipidemia e, que, a hipertensão arterial esteve presente em 13% das mulheres e 7% dos homens avaliados, apesar da baixa incidência de cardiomiopatias2. Na avaliação clínica desses atletas é fundamental não apenas consideramos a história clínica e fatores de risco atuais, mas sim todo histórico ao longo da vida, pois muitos podem ter em seu histórico antecedentes de fatores de risco como obesidade, tabagismo, hipertensão arterial, alteração glicêmica, além de etilismo, que os levaram a mudar o estilo de vida. Considerar apenas os fatores de risco do momento pode nos fazer subestimar o risco da presença de doença.
É muito importante ressaltarmos que quando falamos da avaliação pré-participação de atletas não podemos generalizá-la para toda população. Não podemos burocratizar a indicação de uma das maiores ferramentas que temos para melhora da saúde cardiovascular, osteomuscular e metabólica dos nossos pacientes, o exercício físico. Um dos grandes problemas que temos atualmente é o sedentarismo e o alto comportamento sedentário da população. Incentivar a prática de exercícios deve ser parte da consulta médica e não requer a necessidade de ampla avaliação diagnóstica.
Ainda dentro desse tema, a Medicina do Exercício e Esporte também tem debatido a necessidade do preparo adequado dos profissionais ao atendimento de urgências e emergências em campo. Parece simples, mas um atendimento fora do ambiente hospitalar necessita de planejamento e treinamento. O preparo adequado inclui ter um plano de emergência bem estruturado, treinamento regular da equipe em suporte básico e avançado de vida, e a disponibilidade de equipamentos essenciais, como desfibriladores externos automáticos (DEA), kit de primeiros socorros, e acesso rápido a serviços de emergência. Cabe ao médico responsável por um evento esportivo organizar toda a logística para esses casos. Ele precisa conhecer as principais ocorrências atreladas ao esporte que será realizado, as condições onde a prova será realizada, fatores externos como o clima, pois as necessidades e o volume de atendimento podem ser muito diferentes. As necessidades de uma prova de maratona, com alto número de participantes, com diferentes níveis de condicionamento no inverno são diferentes em uma época de calor e mais ainda de competições de luta, por exemplo.
As emergências médicas em esportes podem variar desde lesões traumáticas, como fraturas e entorses, até eventos mais graves, como parada cardiorrespiratória. Para casos de emergências, o planejamento e preparo da equipe precisa ser o mesmo, independente da modalidade e situação em que se dará a competição. Infelizmente já nos deparamos com atendimentos televisionados, em que visivelmente não houve o preparo. A prontidão e a capacidade de resposta rápida da equipe médica são determinantes na evolução desses casos. Estudos mostram que a utilização imediata de um DEA em casos de parada cardíaca aumenta significativamente as chances de sobrevivência, reforçando a necessidade de ter esse equipamento disponível em eventos esportivos. Metanálise3 recente demonstrou que a presença de um espectador treinado em manobras de ressuscitação e a utilização do desfibrilador externo automático pelo leigo aumenta em 3.8 e 5 vezes, respectivamente, as chances de sobrevivência em ambientes esportivos, o que reforça a importância do treinamento.
Portanto, o nosso imaginário sobre atletas como “seres superiores” não pode nos fazer baixar a guarda em relação a saúde desses indivíduos e o preparo antecipado para situações inesperadas. Antes de serem atletas, eles são seres humanos, possuem hábitos e história de vida, os quais precisam ser detalhadamente avaliados.
Referências:
1.Ghorayeb N, Stein R, Daher DJ, Silveira ADD, Ritt LEF, Santos DFPD, Sierra APR, Herdy AH, Araújo CGS, Colombo CSSS, Kopiler DA, Lacerda FFR, Lazzoli JK, Matos LDNJ, Leitão MB, Francisco RC, Alô ROB, Timerman S, Carvalho T, Garcia TG. The Brazilian Society of Cardiology and Brazilian Society of Exercise and Sports Medicine Updated Guidelines for Sports and Exercise Cardiology - 2019. Arq Bras Cardiol. 2019 Mar;112(3):326-368. doi: 10.5935/abc.20190048. Erratum in: Arq Bras Cardiol. 2019 Sep 02;113(2):300. doi: 10.5935/abc.20190170. PMID: 30916199; PMCID: PMC6424031.
2.De Matos LD, Caldeira Nde A, Perlingeiro Pde S, dos Santos IL, Negrao CE, Azevedo LF. Cardiovascular risk and clinical factors in athletes: 10 years of evaluation. Med Sci Sports Exerc. 2011 Jun;43(6):943-50. doi: 10.1249/MSS.0b013e318203d5cb. PMID: 21085042.
3.Michelland L, Murad MH, Bougouin W, Van Der Broek M, Prokop LJ, Anys S, Perier MC, Cariou A, Empana JP, Marijon E, Jouven X, Jabre P. Association between basic life support and survival in sports-related sudden cardiac arrest: a meta-analysis. Eur Heart J. 2023 Jan 14;44(3):180-192. doi: 10.1093/eurheartj/ehac586. PMID: 36285872.
COMENTÁRIOS