A hipercolesterolemia familiar (HF) é uma doença genética, predominantemente de herança autossômica dominante, do metabolismo das lipoproteínas, caracterizada por elevações severas do colesterol da lipoproteína de baixa densidade (LDL-C) desde o nascimento e alto risco de doença cardiovascular aterosclerótica (DCVA) prematura. A fisiopatologia da aterosclerose na HF é regida pela exposição cumulativa e vitalícia ao LDL-C (carga cumulativa de LDL-C). Este artigo apresenta uma síntese narrativa das evidências atuais sobre a mudança de paradigma no manejo da HF: a transição do diagnóstico clínico reativo para um modelo de medicina de precisão que integra diagnósticos clínico-moleculares, rastreamento familiar em cascata, estratificação de risco individualizada por biomarcadores (como a lipoproteína(a)) e imagem subclínica vascular, além do escalonamento de terapias hipolipemiantes intensivas. Revisamos o papel das estatinas de alta potência, ezetimiba, anticorpos monoclonais inibidores da pró-proteína convertase subtilisina/kexina tipo 9 PCSK9 (evolocumabe e alirocumabe), o pequeno RNA de interferência inclisirana e o ácido bempedoico. Na HF homozigótica (HoFH), destacamos o impacto de terapias independentes do receptor de LDL (LDLR), como o evinacumabe (anti-ANGPTL3) e a lomitapida. Por fim, discutem-se a prova de conceito inicial das tecnologias emergentes de edição gênica e as barreiras de implementação no Brasil, caracterizadas por elevado subdiagnóstico e assimetrias de acesso entre a Saúde Suplementar e o Sistema Único de Saúde (SUS).