A morte súbita cardíaca em atletas representa um evento raro, porém de alto impacto clínico e social, com incidência estimada entre 1–2 casos por 100.000 atletas por ano. Sua ocorrência reflete a interação complexa entre predisposição genética, remodelamento cardíaco induzido pelo exercício e fatores ambientais. [1] O remodelamento cardíaco fisiológico do atleta pode mimetizar doenças estruturais, configurando a chamada “zona cinzenta”, o que torna a distinção entre adaptação e patologia um dos maiores desafios da cardiologia esportiva. Nesse contexto, a integração de dados clínicos, eletrocardiográficos, de imagem e genéticos é fundamental para adequada estratificação de risco. O teste ergométrico, especialmente quando realizado com esforço máximo e em protocolos específicos para o esporte, e a ergoespirometria desempenham papel central na avaliação funcional e arrítmica. A identificação de padrões de alto risco durante o esforço, como indução ou piora de arritmias ventriculares, é crucial para a tomada de decisão clínica. Adicionalmente, o uso de esteroides anabolizantes emerge como fator relevante e frequentemente subestimado, associado a remodelamento miocárdico adverso, fibrose e aumento do risco arrítmico. A prevenção da morte súbita em atletas exige abordagem multimodal, incluindo triagem pré-participação, estratificação individualizada e decisão compartilhada quanto à elegibilidade esportiva. A linha entre adaptação fisiológica e doença é frequentemente tênue, exigindo avaliação crítica e baseada em evidências.